Segunda-feira

Corrimão

Passava-me, mão por mão
até cada uma chegar ao vão
pedindo sempre a ela, singelo:
passa logo, senão
me entrego

Entregava-me, grão por grão
até saciar a digestão
rogando eu, em vil desalinho
regurgita-me, ou então
definho

Pois me definhava, qual um cão
tísico, anêmico e ladrão
até o enterro, em estilo moderno:
pés descalços, aliança
e terno

Enterneceu-me, porém, na contramão
por tiragosto do prazer etéreo.
Digeri-me em teu beijo estéreo,
enterrei-me no dilema venéreo
que jamais decifraria são:

ocupar-me de um amar aéreo
sambando ao som de bolero
fazendolhos
correias
dasmãos.

Quarta-feira

De volta à Estação 84

Guardarei com gosto o Guanabara
Reminiscências do Renascença
morcegos, chuvas, engarrafamentos,
estripulias no quintal
da estação pós-terminal
dum metrô que jamais vi:
Grajaú, Vila Isabel, Andaraí.

Tanto digo: um pouco morri
quanto muito nasci.
Ah, por dizer que me diverti:
um cinema no Iguatemi.

Noites quentes tem o Andaraí.

Ali,
onde recorreram dejá-vùs,
também notei o que não percebi.
Posto aberto, churrasquinho,
chaveiro, senhorio, rio,
cores e sons madrugadas a fio,
responsabilidade e desatino;
almoço no bar da esquina
e o olhar daquela menina:
a resumir, o que vivi
em dois anos, três meses
e uns dias no Andaraí.

Saí.
Não volto de onde parti.
Pisei, chutei, caí,
de muito me despedi,
por pouco não desisti.
Eis-me, de novo, aqui:
como jamais me permiti.

Entrego as chaves:
me perdi
e me encontrei no Andaraí.

Sinal de entrada

No Andaraí
Nem Jesus tem
A vida lá
Veja o que é
Um hospital
E o Sumaré
Se esse deus há
Valhei-me fé
Pra eu rogar
Por um migué
Vou é deixar
De ser mané
E enfim comprar
O caxangá
Do Seu José
- Pra me livrar do alugué!

Terça-feira

ENVEREDANDO-SE ATRAVÉS DA AUDÁCIA

Por vezes penso poderia morrer tranqüilo, que o que já vivi me basta. Ou não. Pois, pensando melhor, se meus breves longos vinte e poucos anos considerei tão profícuos, os próximos quarenta devem prometer muito mais.
Esta aparente tranqüilidade pretende obliterar, em verdade, meu medo diante da morte. Julguei melhor acostumar-me a nela pensar do que afastá-la de minhas especulações. Mas está a desdita presente mais por aversão que por serenidade. Porquanto ora me entrego às veleidades.

Notas de Viagem (XV)

Santo Antônio, Aperibé:
medos são só tamanhos
mãe voeira, filho fanho
quase viramos manés.

Notas de Viagem (XIV)

Brasília (III):
aqui, só penso lá
o melhor de ir
será voltar

Notas de Viagem (XIII)

Brasília (II):
cemitério do futuro
onde o poder, soçobrado
repousará, qual nuvem fria

Suposto sol de uma era
Tua luz, em verdade, jaz
nas cidades satélites
nos candangos marginais

Bilhetes à minha Analista (I)

Olha, não adianta querer pôr-me a culpa de tudo, pois estou convicto de que há muita vergonha no mundo. Diuturnamente, meu pragmatismo aflora e me afasta das tuas sessões, cônscio de o interpretares com fuga mais que afronta.
É isto tudo, e um pouco mais. Fujo de ti pois preciso desta distância absurda e solenemente declarada. Não suportaria alguém entre eu, mim e meus defeitos: expressão tácita e precisa do meu ser, seus erros, mil vezes mais do que os acertos.

De Literatura

acordar Caetano
ensolarar Drummond
beber Maieiro
almoçar Bandeira
trabalhar Chico
descansar Maiakovski.

enrolar Machado
fugir Gullar
jorgear Amado
anoitecer Lispector
gozar Bukowski
e morrer Morais.

Maio, 1968

Foi aquele um dia
claro de agosto
em dois mil e oito
quando cantou - e cantei junto
a vida
solitário, entre
meus companheiros
de copo e de cruz.
Deu-se o tom
da dor
do amor e da vida
clara, de tão escura
olhamos o céu
e vimos a brisa
do entardecer daquele mês.
Estávamos puros de toda
alquimia
da afronta da hipocrisia
éramos nós
estávamos todos
a ser ninguém
compartilhávamos o íntimo
do absurdo
dedilhávamos o ínfimo
do obscuro
sentir que os limites
nada mais são
do que barreiras sórdidas
a serem, solenemente,
ignoradas.

Octopus

Teu vórtice
ensimesmado
se abre no instante
diamante albergado

Teu espaço
ergue a fronte
dos cantos
agiganta-tes
se me envolvem
teus braços

A Saramago

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos. E descobrimos que é no outro que se há de reconhecermo-lo-nos.
Se posso dizer que em meu coração cabe o mundo, é porque creio seja possível em todo e qualquer ser reconhecer-me. Caso eu reconheça-me concentrada e abrangentemente noutro ser, a ponto de vislumbrar um horizonte factível de totalidade; caso o outro também o reconheça; e caso isto permaneça, desnecessário será dizer
que te amo.

V

Te vejo na praia
penso: nossa laia
tem razão
em querer a revolução
Pois depois da ditadura
do proletariado
a vida será menos dura
e com mais feriado.

Puta que nos pariu, morreu o Lobo!

Rafael Maieiro


O passarinho tem um modo
Sorridente de chorar
Transforma o ogre
Num palhaço impopular
F.W.

Peço licenças atrasadas pelo xingamento. Aos que se chocaram, minhas pouco sinceras condolências. Morreu um comunista. Mais: um álcoolotra! Mais isso: um gênio da crônica, um gênio da vida! Mais, bem mais: uma pessoa pela qual eu mantinha um amor platônico (leiam a A Carvena, depois tirem conclusões). Marcarão um cruz naquela pedra, algumas palavras, nada mais. Nunca mais juntará suas letrinhas criando chumbos indispensáveis ou anjas com asinhas, algodão. A Fera, o Lobo, o Soldado-álcoolotra: morreu morreu morreu, gritem comigo, morreu morreu, morreu o Fausto! Te chamo, Fausto, te clamo: E agora, Lobo? Lobo, e agora, o que faremos?

Comprei uma garrafa de uísque e decidi escrever esse texto. Repito-te, de cuecas com um litro, escrevendo minha decepção com o mundo, com o estado de ser e com os estados do ser. Bêbado, Fausto, choro choro por lembrar de ti. Choro, agora, por não ter mais a possibilidade de um dia tomar um porre contigo. Morro um muito contigo. Como você foi deixar o Aldir, os Carusos, o Jaguar, o safado do Ziraldo, porra Fausto, como você foi me deixar? O Manoel deve ter chorado, sabia? Fausto, por quê? Por quê? Você responde, por certo, citando Sigmund: Porque sim, seu Bicha!


Agora, falando francamente.
F.W.

Medo, tédio, porre.
Às vezes, sem mulher,
me dá na venta
Uma punheta.
Porre, medo, tédio.
Uma fatal idade.
Tédio, porre, medo.
Ninguém me socorre.
Da falta de curiosa idade.
Arremedo.
Foragido da insônia,
sou engolido pelo pesadelo.
Garçom, por favor,
Uísque com gelo.


É... Fausto, por favor, um Uísque com gelo. O infinito é confortável? Precisa-se beber por aí? Aí tem uísque e gelo? Precisando, te mando, é só escrever... Ai, Fausto, ainda bem que temos imaginação. Amigo, parafraseando o Julio:

Três dias depois do enterro chegou a última carta de Albino, na qual, como sempre, perguntava pela saúde de Fausto. Ziraldo, que a recebera, abriu-a e começou a lê-la sem pensar e, quando levantou os olhos, porque de repente as lágrimas o cegavam, percebeu que enquanto lia a carta estivera pesando de que forma haveriam de dar a Albino a notícia da morte de Fausto. Sigmund e Jaguar reponderam: Puta que nos pariu, o Lobo o morreu! Nos encontraremos no Bar Brasil...

E, infelizmente, é assim. Sem gelo, por favor...

Segunda-feira

Notas de Viagem (XII)

Papucaia:
faz bem o tempo
que de cinzento
vira praia

Quinta-feira

Sentido

José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade, E Agora, José?



Abriu a porta, saiu. Desnorteado pela brisa fria, se encantou com quase tudo que viu, embora tal rol não estivesse além de meio palmo da ponta de seus pés. Seus passos formaram um caminho de geometria indescritível. Chuva forte, não sentia. Sol a pino, recebia. Topada, não lamentava: levantava e logo depois retropeçava.

A névoa se tornava cada vez mais espessa e, quando já longe ia, resolveu parar um instante. Olhou em volta. À direita. Pela esquerda. Não havia quem fosse. Virou-se para trás, também ninguém o seguia. E, se houvesse, era como se sentisse que jamais saberia.

Deduziu: dentro daquele vento, seus olhos não mais serviam. Fechou-os, e como lhe ocorrera noutras vezes em que o fez naquele caminho, viu-a, naquela última imagem registrada, atrás da porta. Queria voltar, queria seguir de onde havia parado. Não sabia como, não sabia o rumo a tomar. Mesmo assim, sorriu de leve, pois finalmente compreendeu que dela, ao menos, ainda se lembrava.

*
* *

Não entendia quando lhe perguntavam se os dois haviam voltado. Estava convencido de que um do outro jamais se haviam distanciado.

Sábado

Notas de Viagem (XI)

Belford Roxo:
moleque na rua,
poeira crua
e cinto frouxo.

Notas de Viagem (X)

Niterói:
de tanto ver
o belo Rio
a vista dói.

Notas de Viagem (IX)

Saquarema:
Onde perna quebrada
vira embolia
e enfisema

Sexta-feira

O auto-móvel

Como aqui não tem garagem
eu parei em frente à vila
o carro, com a engrenagem
soltando fuligem da vida

Soltando fuligem da vida
estava aquela engrenagem
que impedia de dar a partida
e não deixava seguir viagem

a fuligem e a engrenagem
me deixavam fulo da vida
pensando ser fuleragem
do carro, da moça e da vila

de relance, naquela paragem
percebi que em toda minha vida
eu tive mais medo de garagem
que vontade de dar a partida

com a questão ali percebida
decidi deixar de bobagem
e cansei daquela viagem
que não tinha rumo ou paragem:
parei foi na moça da vila.

Quarta-feira

A Mário Quintana

Desconfio: o guarda noturno que dorme todas as noites diante da minha casa, na verdade, zela profundamente por meus sonhos.

Terça-feira

Igualdade

Jogar dominó, desejar a atenção de todos e fazer as necessidades nas próprias calças. Tudo isto aproxima a velhice da infância.
Tomara ela também traga de volta a completa e pura credulidade no mundo.

Liberdade

...essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!
Cecília Meirelles, Romance XXIV ou
da Bandeira da Inconfidência

Já renitente é a imagem de se começar no caixão e terminar no ventre. Partir da fissão para alcançar o átomo. Saber o que vai acontecer antes do que já se deu.
Tivesse eu em conta que prever nada mais é do que um ato prático – pois o primeiro passo rumo à realização da idéia - muito mais já teria feito. E desfeito. Não tive, não pude. Perdi-me.
Nos tempos do volátil liquid-paper, o melhor da vida é saber: o rabisco existe, e porque resiste.

À noite que ainda virá

A chuva na madrugada é triste
Discussão por telefone, o que de pior existe
O calor, para a flor, é um indigno sufoco
A desídia torna meu coração oco
Um passo, com minhas pernas: um gesto enorme
Rezo para ter anemia falciforme
Confiança é pra mim uma moléstia
Seria menos infeliz com a modéstia

Talvez é muito mais sim que não
Como tem o infinito mais de 1 que de 0.
Mas a vida não é jogo, vitória nem empate
muito menos trata de lógica matemática.
A matéria é diacrônica e volátil.
Eis o pensamento, a coisa mais estática.
Diga lá, meu irmão, o que é a vida então?
- só o que digo é: mais sim do que não.

Ah, e a lembrança: uma velhaca sorrateira
Ou pior, uma verminosa matreira
A escolher da mais cômoda – e vil – maneira
O que se vai e o que fica na algibeira.

Teimosia

Não sei
nunca soube
jamais saberei.
E nem sabão
há de salvar
essa semente
que sibila
- cisma sempre
saber demais.

Quinta-feira

Cao Dai

As confluências
inusitadas
são engraçadas:
influência
de uma fumaça
vacilada

Terça-feira

Três mortes para um poeta

Depois de passar a vida buscando o prazer e a felicidade no outro, o poeta descobriu que tudo feito assim quando não é projeção trata de fingimento. Chegou ao mais profundo do si e finalmente pôde observar quem era, vivendo desde então a escrever como forma de sustento.
Depois de tentar por oito anos traduzir-se através de palavras, o poeta, enfim, escreveu sem se notar algo que realmente lhe tocou o coração, o intelecto e a razão enquanto objetivação de uma idéia sentida. Chegou, alfim, à conclusão: de ora em diante, escrever passaria a ser sua distração.
Depois de atravessar distraidamente a rua sem olhar para o lado de onde vinham os carros, o poeta chegou, na prática, à resposta para o prosaico enigma de Drummond: o automóvel pára; quando não, a vida. E jamais escreveu novamente.

Sábado

Fartos Cacos

ou Novidade Regal

(Samba em homenagem a
João Nogueira, Cartola
e Vinícius de Morais)

(sobraram cacos do sobrado)
Sobraram cacos do sobrado
quando eu tomava café
o amor se perdeu

A cafeteira foi passada,
você não entendeu
qual era o meu verdadeiro
prazer matinal
(e agora)
agora eu como torradas
com Chivas Regal

Prato raso, xícara velha
e a louça da China
investigando quem viria a ser
essa nova menina

E destruiu meus duralex
sabendo que a novidade
era totalflex
(és a ex)

sabendo que a novidade
era totalflex
(és a ex)

sabendo que a novidade
era totalflex

(devolvo-lhe os cacos pelo Sedex)

Terça-feira

Lamento de África

A baía da noite banguela
engole medos e sonhos
vomita cedo os medonhos
gengiva negra de benguela

Notas de Viagem (VIII)

Amsterdã:
dependendo de quem convida
de ferida
fica gosto de maçã.

Notas de Viagem (VII)

Rio de Janeiro:
poesia partida,
cidade inteira.
Dividida aos fevereiros.

Segunda-feira

Travessi(nh)a

Vejo da praça:
sua barca passa
sem que eu impeça.
Pois acho graça
que o destino faça
uma coisa dessas.

Sexta-feira

Notas de viagem (VI)

Brasília:
pretendes que eu finja
ser este matagal
a capital federal?

Notas de viagem (V)

São Paulo (II):
onde a burocracia estatal
venceu o homem cordial
(Sérgio Buarque, coitado)

Notas de viagem (IV)

São Paulo:
onde o dia depois da eleição
para juiz e escrivão
é feriado

Notas de viagem (III)

Recife (II):
painho não tem fígado
não fica bêbado
e desconhece calvície.

Notas de viagem (II)

Serra Talhada:
viajei dez horas
que demora
para quase nada.

Notas de Viagem (I)

Recife:
fazendo assim
de chover finim
não queres que eu fique.

Quarta-feira

Despedida na Estação 84

Nunca mais Bruxelas, Paris,
Nova Iorque, Avenida Brasil
Adeus Gramacho, Barão de Mauá
Estrada, Ferro, Zona e Leopoldina

Adeus Faria Timbó,
minha avó, tão reclamante
céu de amarelo-traçante,
aviões do Tom Jobim,
as moças que fugiam de mim,
ônibus de todas as partes,
fuligem,
gentes de todas as classes,
vertigem,
sonhos de todas as sortes.

(um Auf Wiedersehen sincero
para o tilintar dos tiros do Alemão)

Deito aqui, diante da Estação
de um Bonsucesso (sem barão)
dezoito anos de bronquite
e alegrias;
quatro de primário, sete
de educandário e
algumas horas de orgia.

Ignoro a falta que fará
o som do trem das seis
o azul do céu naquele mês
em que abandonei a timidez.
(fará ignara falta)

A tia já não me verá,
nem Cristo
(embora este
já nem me via,
pois nem de frente,
uma vez tão longe,
conseguiria)

Mas,
Não fosse tudo isto
eu aqui ficaria
me entediaria
até morreria
de susto, algum dia,
bala ou vício.
Mas eu desejo
- profundo -
o suplício
- bem como a delícia -
que noutras plagas
me esperam.

Terça-feira

Diafania

eu quero a sensatez
dos exageros
e a discrição dos
assobios

porque tudo que é demais
se descreve
com definição
de seus limites.

Pasárgada?

A noite naquele bairro - embora nobre - parecia perigosa. Entrei na casa. Passos de homem, olhos de criança. De um lado, mulheres reunidas em apartheid. Do outro, o que importava, pessoas a quem fui apresentado.
Ajeitei-me no sofá ao lado de uma planta artificial (aliás, como tudo o mais). O homenageado contou suas histórias. Todos riram com a boca do estômago, embora soubessem que a boca do estômago não ri. Mas ali, corpos eram reinventados. Uísque caro e filosofia barata embriagavam os sentidos vazios daquelas vidas sem sentido. E assim, cheias de lânguidas sensações.
Aquela noite entrou para a história - é aquela história, jamais será contada. Pois aquela história logo em seguida foi esquecida, graças à noite seguinte, igual àquela, que igualmente entrará para a história. Porque jamais será contada. Afinal, nem foi vivida.

Audaluzia

Me atrevo
Sim, me atrevo
ao clarão do fogo

não sei que fado
hei de merecer.
Manso me ofereço

a renascer em flor:
melhor atrevido
do que entrevado.

Domingo

Fossemdó

Pede, implora, patente,
____que a cante
com rimas fáceis
frases feitas
- coloresgente.

Lapso

Outrora,
nem chegaste:
foste embora.

Agora:
eis a chance,
perca a hora.

(A demora
faz sublime
toda história)

Sexta-feira

Rastro

Sobrou do céu
da Serra Talhada
_____________
um sereno traço
de um loiro escuro
________ fim de tarde
________ tom sertão entre
nuvens e horizonte

Restou o breu
da guanabara
e o dó
pelo trejeito fácil
da graça pura
cor de mel
corando a milhas de
distante destes versos

Talhado o véu
serenas nuvens
gracioso mel
sertão vertigem
traçado breu
nesta estalagem
soçobrou, nada
dourada saudade
daquele céu
de pôr-de-sol
no sertão

Terça-feira

O Brasil de Hoje

José Laurentino Silva Neto*


No país em que vivemos
muitas pessoas morrendo
uma violêcia demais
pessoas desempregadas
pobres e desesperadas
pedindo um pouco de paz

Existe corrupção
em qualquer lugar
Na polícia, na justiça
e onde imaginar

Aqui tem corrupção
em todo o Estado
até mesmo na Igreja
que é um lugar sagrado

Hoje na presidência
temos um irresponsável
que em todo seu governo
não fez nada aproveitável

E o nosso presidente
é um incompetente
um corrupto vagabundo
que só faz mentir
e fazer promessas
pra todo mundo

*Netinho, 12 anos, cabrinha arretado, neto do Poeta Zé Laurentino, Filho de Carlos Magno Marcelo, de quem Alexandre Magno tem muito orgulho de ser irmão.

eleTROLA arranhada

(respondendo Velódromo)

Maieiro

ela
___ção, o que?

ela
___fiano, em você?

ela
___ter
_____ô
______metro, ela é ela?

Quarta-feira

Ebridade

Rafael Maieiro e Alexandre Magno

eu sou mais bilac que decassílabo
eu sou mais o amor do que neruda
eu sou
-------mais corte
---------------------do
------------------------que
----------------------------oswald

Tenho mais
--------a
------- i
------- a
------- k
------- ó
------- v
------- s
------- k
-que a ira dele próprio

---sou mais soviético
------do que lenine
--------mais herético que o rum
-------------------------------a vodca
------------ ---------------------i--- chaça
------------- --------------------nho em comunião

a sílaba exata é o sou
-------------------------larva
--------- ------------------a
--------- ------------------ganhar
-------- -------------------o;
----------- -------------------------------{mundo!}

Sexta-feira

Fraternidade

-----------------------------------------------------e assim, se me perguntares como serão os nossos filhos, direi: se forem – que sejam, desejo – como nós serão. O cúmulo da cumplicidade, tão próximos que se confundem. Companheiros, complacentes, compreensivos, precisamente conjugados. Querendo cada um o seu bem, sabendo que para tal vez por outra sacrifique parte do outro bem. Se nossos nomes não tiverem, desimporta: ainda serão nossos nós, estreitados na vastidão do destino. Dois lindos, apaixonadamente eternizados pela graça de uma comunhão insólita. Unicamente compartilhados, bem assim cerceados pela barreira insondável da fraternidade consangüínea.
Até que o incesto os separe.

Quinta-feira

Experiência de Rosi Mauricio, paciente psiquiátrica em situação de rua, no Largo do Machado

Neste infecto mundo cão
Loucura é permanecer são.

(Tomara que alguém, em algum lugar do mundo, já tenha se dado conta: a loucura nada mais é do que a criatividade humana em seu mais grave grau de dispersão)

Quarta-feira

Ferreira, Bandeira, Drummond

I

--------motores
-------- mitocôndrias
------- bactérias
------_vento
e mísseis israelenses
--seguem seus tristes destinos

Nos becos
---- mansões
---- sarjetas
----------------pulsa o alarde imóvel
im plena captal
do reino unido d'lgarve
brsil e prtgal

----carboidratos
--------- óleo diesel
--------- oxigênio, pólvora
---------------------------e urânio
se consomem
as almas, de cadentes
---------------------------somem

Um imenso nevoeiro cobria aquela velha baía da guanabara.


II

Nas águas da baía
deito fora a esperança
viagem longa, noite fria
em pleno sol a vil lembrança

Ficou de fora o olhar macio
Corpo alvo na memória
com timidez e passo esguio
por um momento a vida inglória

Branca, branca, branca, branca
brando toque sobre a anca
alva, negra, rubra, branca
indigitada moça é a história

Nas águas da baía
refletida, foi-se embora.


III

Será que sonhei de novo
o mesmo sonho de outrora
ou seria sutil farsa
isto, o que vivo agora?

Pressinto não ser quimera
embora insista arredia
Pois sempre ao me ver, sorria
já eu corava na espera.

Da cena de uma novela
indiscreta, singular
dirigida por aquela
que me fez descreditar

o tempo, urge a tragédia
ronda dos reles mortais
frente à merda, de tudo mais
despidos, somos comédia.

Terça-feira

Velódromo

Ando a mil
e assim
a vida a cem
me atrop
------------ela

Idade-síntese

A única certeza absoluta é a dos dezesseis anos. Nessa idade, somos o que haverá de mais perene: medos, esperanças, vontades, impulsos, ideais, projetos. Todos em seus mais intimamente explícitos limites, livres da racionalidade despótica que o tempo – e a realidade – impõem aos que a ela sobrevivem.
Ali, naquele ser da mais pura efemeridade, reside a constância do restante de uma vida. Que se vestirá, é verdade, noutros tons, preferindo comprimentos diversos. É daquele gosto, porém, que se projetarão todas as futuras tendências.
Por ser a mais pura expressão do indefinido – nem criança, nem adulto, nem homo, nem hetero, nem gravata, nem honra – eis a idade que representa o fundamento irredutível de todas as possibilidades. Aos dezesseis anos, sonhamos todos os nossos sonhos. Lembramo-nos deles para o resto da vida, ainda que nos esforcemos para esquecê-los.

Segunda-feira

Discreta Modorra

Alexandre Magno / Felipe Eugênio

Sem acesso é o território
Grossa areia
E a água, como tudo o mais. Viva!

Na noite, fulguram
luzes de um raro charco
Sob a amendoeira
descansa um barco

Um país a inaugurar
Cidade Nova driblando o torpor
Vou-me embora para a ilha, negra,
Lá sou amigo do Governador!

Quinta-feira

Verso em prosa en carne

R. Magno e A. Maieiro

(A Vinícius,
com seu cigarro
e sua boemia,
dedicamos esta
poesia)

Salvo o homem que crê
coitado é o homem que crê
Inusitado homem que crê
embriagado naquilo que vê

Prostrado corpo que cai
prostrada é a vista que cria
coitada mulher que via
inusitado homem que não ria
coitado amor que não crê

Alegre sem ter porquê
Na vista você não cria
Mas vê o amor que procria
Sem a vida que queria

Bebericar o amor sem poder
é a vida que eu queria
Buscando a errante poesia
Que eu nunca vou escrever

Quarta-feira

Negociações tabagísticas

A. Magno e R. Maieiro

Auréola incendiada
Pólvora
em comoção

Filtro fétido
Desfigurar o tédio
Da fumaça, a corrosão

Cinzeiros, cinzas
Bitucas guimbas
Torpor na mão

Brasa apagada
Fim do trato
alcatrão

Quinta-feira

ArDor

R. Maieiro e A. Magno

Alguns dizem:
amar é folia

mas amar
é tão dor
que chega a nem doer

(eu choro lágrimas-sangue e penso:
sorte é a não-existência)

Outros já disseram:
o amor
é o caminho da verdade

mas amar é tão flor
que, apesar do sabido espinho,
todos machucam-se.

(a verdade é a dor)

Amar dói, de fato
Mas amor é anti-fato
ópio desencantado
flores derrubando Titãs.

(na pétala-cinza
sorriso de flor
é
Titã)

Terça-feira

Em busca do caminho tônico

É o fim do léxico
Esgotou-se o vernáculo.
Vou para a América
escrever em itálico
(eis um belo périplo)

Já estou sorumbático
Virarei médico
Para rimar sáculo
com asséptico
Ou então psicólogo
para estudar Édipo
Escrever prólogos
de estudos imagéticos

O orador, eclesiástico,
vaticinou, explícito:
"Trovador sem léxico
é marxista hipotético,
como aquele soviético
que morreu apátrida
golpeado no México.
Já passaste do prólogo
há muito, teu epílogo
contíguo e fatídico:
um cortejo fúnebre".

Contra a lástima
buscarei, epilético,
tornar impúberes
todos os céticos
Combater o lúgubre
e ser mais poético.

Cansei do estático.
Não deixarei mísero
meu curso histórico.
Atravessarei o pórtico
do inexorável tédio:
Tornar-me-ei prático,
um renovado teórico.

Quinta-feira

Indensidade

A poesia
é um metal pesado
que rompe o crânio
entorpece o lábio
abala o câmbio
e afina o fado

A teimosia
é um fatídico fardo
que endurece o lombo
repercute o impávido
assombro
de impropérios ávido

Epifania
ser um cordel apócrifo
estrondo gélido
prelúdio trágico
ao mesmo tempo
que um inquilino inóspito.

Sexta-feira

Fumaçalira

me fume,
preso em teus lábios
não sou mais que
tragada de cigarro
a tocar-te inteira
por dentro

me fume,
o carbono etéreo
é sólido,
cintilante, embora
nele nada encoste

me fume,
a fumaça é volátil,
dissipa a saudade
e traz à presença
o pôr-do-sol do cerrado
num fim de tarde.

me fume,
a paixão é concreta
como a fuligem
a poesia é concreta
como a miragem

e o amor,
ah, o amor:
é da vida a pastagem.

Inocente intenção

Esperei todo esse tempo
Por um breve momento
Em que o real e o intento
Viraram um só movimento

Zigue-zague
Comunhão
Troca
Obsessão

Palavras, perdição
Da praxe

Idéia, injunção
Da sintaxe

Segunda-feira

Obedeço

A morena mostrou-se maestr’a
no malandro mandar

Malandro:
palavra penosa de rimar,
Comando:
não há lira imposta,

Morena:
rima sempre em cena
a manda-costas

Já és boa poesia.

Balbúrdia

(tradução)

Sois
O frontispício da minha felicidade

Já não sei
Que é feito da minha vontade

Porque
Meus sonhos se mesclaram
à realidade

Outono

(tradução)

A mim chegaste na calada
Falante e alada
Sem censura, derramou
Mais que flores, cores
Olores e imprecisão
No meio da multidão

Penso

(tradução)

De manhã, em jejum
Penso em ti
Ao meio dia, almoçar pra que?
Só faço pensar em você
De noite, não janto
Na minha mente, o teu encanto

E pela noite, me vem seu nome
e não durmo de fome.

Domingo

Cíclica

Por vinte e quatro horas
pulsa a vida na cidade
nuns instantes, muita troça,
noutros, nenhum alarde.

Os bares
e as esperanças
arriaram as portas
Água no chão,
Pra fora, folião!
Um gato entra no salão.
Os ônibus começam a circular
e a vida teima em tentar novamente raiar

Desconheço
se as perdizes impacientam-se antes do abate
(para que perdizes são abatidas?)
Só, o que sei
é não saber ser simples

Já passou a madrugada,
lá se vai mais um dia.
Cá, ficará a certeza:
tudo estava igual à luz da lua,
não haverá nada de novo sob o sol.

Casa-mata

Para uns a morada da paz
Para outros, onde a alegria jaz

sepultada.

O lar:
Antro de frustrações
Depósito de neuroses
Reduto das inquietudes

Eis o opróbrio habitado.

(moral: antes sem teto do que mal abrigado)

Scompiglio

Tu sei
La finestra della mia felicità

Non so
Più cos’è dalla mia volontà

Perché
Miei sogni si hanno mescolato
alla realtà

Terça-feira

Mais

(Versão de "Cuba Va", de Silvio Rodriguez)

É de amor que estamos falando
Pelo amor que estamos fazendo
Por amor estão até matando
Para por amor seguir se empenhando

Ninguém vai deter o passo
Queremos amar em paz
Pra lutar por mais espaço e
Superar
Superar
E ser mais..... (4 veces)

Quero poder cantar ao mundo
Pra chegar ao último confim
De norte a sul
de leste a oeste
E que qualquer homem possa
Clamar suas próprias esperanças
As feridas e sua luta
Quando queira se

Talvez uma navalha
Se enterre na torpeza
Talvez algumas noites
Não tenham estrelas a luzir
Se apenas com palavras
Puder abrir a selva
E apesar desses pesares
Vamos tentar superar
Superar..... (4 veces)
Superar..... (4 veces)

Otoño

A mi llegaste en la callada,
hablante y halada
Sin censura, derramó
más que flores, colores,
olores e incertidumbre
en el medio de la muchedumbre

Epitáfio

Jamais servi para ter vivido
Pois vivi para ser lembrado
E por viver assim, tão alado
Não choraram por eu ter morrido.

Epitetia

Mágoa
Não sai com água

Não se tira com o dedo
Medo

E o amor
Não brota em árvores

(mas se arrancado do pé, sangra e seca)

Volitivo

Ai, quem me dera
ser um trovador
capaz de falar de amor
capaz de sentir amor
capaz de não sofrer dor
capaz de querer ser feliz

Quem dera não ser
algoz de outro alguém
Capaz de lhe ter
sem ter-lhe como um armazém
sem dar nada além do bem
sem ser o carrasco que fui

Quisera lhe amar
com todo meu vigor e fé
alheio a todo o pesar
avesso às mazelas da terra
levado ao balanço do mar
no embalo do teu cafuné

Agora não mais
serei teu voraz provedor
de amor, conforto e paixão
Deixei-me voltar atrás
ao inferno do dissabor
ao pântano da solidão.

Coisas do Odeon

Coca-cola
Caldinho de feijão
Café expresso

- Cadê você?

Ao fundo,
uma vitrola
Bezerra da Silva!

Contemplo o alvorecer da noite
e o Pão de Açúcar.

Te espero.
Sei, porém,
que não vens.

As luzes se acendem.
Acaba-se o ano.
E pela primeira vez
agradeço a Companhia do Metropolitano pela derrubada do Palácio Monroe.

O privilégio do plágio

Não quero lhe falar, meu amor
Das coisas que ouvi de Chico.
Quero é falar do que eu sinto contigo.
Do teu peso acariciando meu ombro,
Do teu carinho e do ardor do teu olhar.

Eu quero é louvar a sorte
De ter encontrado um amor tranqüilo
Que me tirou o sabor de cobra mordida.
Samba, amore, fino a tardi.
Felicidade ainda que tarde.

Ainda que à tarde,
ainda que você não goste de mim,
pai:
a sua filha gosta.

Breves considerações

Tempo, parco tempo
Se tivesse mais tempo
passava mais tempo pensando
sobre
como desperdiço o meu tempo.

Reclamando, xingando,
Batendo, engolindo,
Tramando, lamentando
E encolhendo.

Sei, Tempo,
que jamais poderei ganhar de ti
todo o tempo que me levas
Mas peço há tempos
que me sopre o vento
da parcimônia
e da sabedoria
para poder dar a quem
de fato merece
o melhor de meu tempo.

Publicidade

Eu só vendo à vista

Eu,
só vendo a vista.

Eu,
Só,
vendo a vista.

Eu, só,
vendo: à vista

Eu só vendo a vista.

Quanto quer pagar?

Poema de depressão

De sua tarefa histórica, cônscio.
Por sua deficiência teórica, néscio.

Fugir é indiferente:
A morte sempre ronda
O caminho das gentes.

Morte que nunca se basta.
Assombração que
jamais se afasta.

Não, eu não vou mais relutar
O que me importa resistir?
De nada adianta combater,
é vão se opor.

A luta é o prelúdio da derrota
E a vitória, uma pausa do iniludível fracasso.

Fragmento de cordel

- Ora, pois que besta és tu?
- Pois Tu que ora és besta!
Não sabes que por comer cru
Muito nego já perdeu a sesta?

Qual larápio pela feira
E malandro na gafieira
o cordel segue arretado
nesse passo do serrado
Pois ficou o cabra a pensar
Na maneira de atuar
E acabou por descobrir
Que o melhor pra vingar
Era dar um jeito de bulir
Com a mulher do desinfeliz
E botar-lhe fama de meretriz

- Pois não fique aperreado
cumpadre, que aquele safado
vai ter o castigo que merece
E nem o padre com prece
vai tirar a praga rogada
em cima daquela desgraçada
Que por conta do marido
Vai ser chamada de puta.

- E ajuda a nossa luta
fazer essa mulecagem?
Será que é com putaria
que se responde a sacanagem?
Pois aquilo que aquele um fez
Puta é que não faz
Pois puta fode mas cobra
E ele nos fodeu de graça
É um safado da pior raça
E a gente tem motivo de sobra
Pra lhe aplicar uma boa lição
É só ter a oportunidade
que a gente vai mostrar pro povão
quem ele é de verdade
Porque pra político safado,
Mulé grávida e dor de barriga
Só tem um remédio nessa vida:
Paciência pra se agir bem pensado.

Desesperança

Secou.
O açude virou
parque.

Transbordou.
O açude virou
a estrada,
afundou um restaurante
e gerou um desvio
de 8,4km
na rodovia entre
Recife e Campina Grande.

Pois é:
a desgraça do nordestino
nunca vem num só pé.

Fuleragem:
Encharca-se o canavial
e seca-se a pastagem.

Diante da vida

O amor
é como uma dor
nas costas.
Azucrina,
incomoda,
enche o saco.
Mas sem ela,
ficava faltando
algo.

Mentira.

O amor
só faz falta
pra quem teve
ou tem.
E há quem
viva sem nunca
ter amado
alguém.

Verdade.

Amor é morte
reconhecida
noutra vida.
Morte do vazio,
da solidão,
da desdita.
Morte do
comedimento
causando
alegria
incontida
interminável
inebriante
inolvidável

Mas que intimida.

À noite, só

A saudade é nua
na noite crua
e (eu)
só(,)
você
poderia trazer
o tempo
e o tempero
e tirar a saudade
desta noite.
Nua.

A lápide da delicadeza

Leve,
Cai a
Lágrima

Lava
A alma da
Langueza

Leva
o lúgubre da
cara

Livra
o olho da
impureza

Louva
a dor da
incerteza

Lustra
o rosto

Na esperança.

Intervenção

Cuida!
Que a vida é curta,
a coisa é bruta
e o ódio furta.

Calma!
que a nossa alma
tolera trauma
e até cicuta.

Leve!
Que a frouxa plebe
se oprime, bebe
inda bate palma

Olho!
que o tempo é pouco
a injustiça, muita,
e te pede: luta!

Cantiga

Minha gira,
gira mundo,
gira seta
gira tudo
e me liberta
gira fundo
que a minha vida
não é mais

Minha lira
serve pronto,
bem acerta
sai do ponto
segue aberta
torna conto
o pesadelo
de lá atrás

Minha velha,
minha garota,
minha camélia,
meu encontro
e minha artéria
vem correndo
que a vida
aqui jazz.

Sinta-se a sintaxe

Gosto dos advérbios:
sobretudo os de intensidade
especialmente os de modo.

Sem eles, o pé da letra sobrepor-se-ia
ao corpo da construção lingústica.
Os signos perderiam a multiplicidade mística
fenecendo a graça da prosa e da poesia.

Conotar é preciso
Denotar não é, nem nunca será.

Soneto da transformação

A silhueta de serpente
cintila no meio da noite
E eu, que ia já descrente
Recebo no juízo um açoite

Atordoado, me percebo atento
a contemplar seu mover tão silente
como voraz, que de repente
torna ínfimo e eterno o momento

Completo mais do que posso
exíguo demais me descubro
para comportar tal sentimento

a colorir de negro, branco, rubro
e amarelo um envelhecido ócio
feito labor por seu tenaz intento

Uma mensagem de celular

128 caracteres não bastam
Você não cabe aqui
Minha lira inspirada em ti
Não cabe aqui.
Não sei o que cabe aqui.

Sei não, não sei...

Não sei se você sabe,
Mas este espaço é um entrave
À minha criatividade.
Não me resta, pois, outro meio:
De ora em diante
Só te escrevo pelo correio.
Um beijo,

Poema de Circunstância

Estava a fim de fazer uns versos
Mas parecia não tinha nenhum assunto
Então eu lembrei que por onde você passa,
Insistente, o meu coração vai junto

Crise

Estou farto do meu estilo
Demasiado aliteroso e assonântico
Ansioso, anseio outra forma...
Mas não vislumbro alcançá-la.

Parece, pois, que não passo de projetar
torpes tentativas de tramar trovas.

(Há, contudo, que se louvar a concisão dos poetas de tercetos. Não aqueles afeitos a arremedos de lirismo, aliterosidades despropositadas, assonâncias ultrapassadas, mas os que sintetizam sensações e sentimentos em sutis signos gráficos).

Entre a prosa poética
E a poesia prosada
Fico no meio do caminho,
Qual pe
----------d
-------------ra

(Ao menos inovei na minha obra
com um toque de concretismo.)

Achado

Procuro pegadas
Plantas de pés portentosos
Procuro palavras
Em poemas de poetas mortos
Procurava respostas
Mas tua candura acalmou minhas inquietudes.

Completude

Morena, Loira, negra, mulata,
mameluca e cafuza.
Verde e castanha. Mel.
És todas
és uma
és toda
és una.

És doce.
És sol e noturna.

És Musa.

Palavras(,) de(s)ordem

Abaixo os relógios!
Sem eles, a vida não teria limites.

Fora a pontualidade burguesa!
Sem ela, adeus atrasos
E todos ficaríamos quites!

Pelo fim da racionalidade despótica!
que transforma corações em pedras
Em seu lugar, levante-se a sensibilidade poética!

Viva o impressionismo artístico!
A crítica é o cérebro da paixão – já dizia o barbudo
Um não à frieza da lógica!

Palmas para as proezas da vida
- que teima em tornar-se querida
a despeito das decepções dos céticos.
E, embora ausente a métrica,
cantemos o triunfo da dialética!

MOCC canta Noel

(2x)
Na sua noite de estréia
O MOCC canta Noel
A patuscada plebéia
tira o seu chapéu
(2x)
Diante do palpite feliz
Fazendo batucada ao léu
O MOCC mostra sua banda
Patuléia nefanda
E homenageia Noel
(2x)
Eu canto a poesia que do coração emerge
Só tô nessa folia em virtude da Uerj

Malemolência gingada, que não tem tradução
Se vem média requentada, eu vou chamar o garçom
Chegou na filosofia, até gago ele ficou
(2x) Pro samba com que roupa que eu vou?

(2x) O Movimento é coletivo...
Por isso o ócio é mais gostoso, é criativo!

Lira bolchevique

A paixão
É como a dialética,
pois conexão
Entre as forças produtivas
E as relações de produção:
Impossíveis de serem sincrônicas
Inevitável é sua contradição

Analisar friamente
a correlação de forças
organizar tenazmente
o turbilhão das massas
e conduzi-las, silente,
sobre as torpes farsas
Eis a tarefa imanente
do apaixonado, em graça.

Ele, que administra na verdade
um estado em decomposição.
Ele, que busca voraz a liberdade
dentro de outro coração.
Ele, que transforma em positividade
os espinhosos caminhos do não.

Espiral de ilusões

O mundo é grande
tem bilhões
e nem palavras
aos borbotões
ou rimas fáceis
e bordões
lançam luzes
tentilhões
sobre as mentes
corações
destes tantos
seis bilhões

Pois o homem é só,
senhores e senhoras
apesar de tantos semelhantes.
E vaga, vai com as vagas
em busca de uma vaga
crendo que jamais será como antes.

O mundo é grande
tem bordões;
também palavras,
tentilhões;
rimas fáceis,
são milhões
que sobre as mentes
em borbotões
lançam luzes
seis bilhões
nestes tantos
corações.

Adiante

Não te obrigues a me dar nada
Bastam e valem tuas próprias palavras
que enfeitam e traduzem sentimentos
além de trazer novos intentos

Não te furtes da dor inexorável
Que põe a paixão nos corações em chama
Ela só pode nos ser palatável
na indizível condição de quem ama

Aproveita e sente o que se apresenta
à tua frente, sem ter tempo para
arrependimentos. E só lamenta

o realizado, pois não há aflição
maior, nem agonia mais rara
que a trazida pela inação.

Odeai

Vai
Vive la vie!
O tempo travou
as nossas engrenagens.

Mas deixa ainda
que tenhamos vertigens,
enfrentemos o breu
e admiremos paisagens.

Vayamos
y deja que pase el tiempo
Ese no me quita la esperanza.

Puede ser que la añoranza
haga aclarar lo que siento
y quizás reconozcamos
nuestros errores
y sintamos
nuevos olores.

Terezinha revisitada

Ser o primeiro, segundo e terceiro
No instante certeiro
Dar o presente na hora exata
O desprezo na hora exata
E o carinho na hora exata
Mas entrar em cena desse jeito
Só em peça
E a vida
Essa que nos fornece e tira
É o inexorável improviso

Porém chega de farsas!
A história já provê suficientes tragédias
O que eu quero é ao meu lado comparsas
Para rir desta divina comédia!

Pois jaz em cada instante da vida
Riso, felicidade, alegria
Até nos momentos de aparente tristeza

Erremos o texto
Esqueçamos a deixa
A vida é assim mesmo
Uma eterna queixa.

Louco incendiário

Cada vez que um entusiasmo
travestido de aflição
atravessa
os interiores do meu corpo
não vejo
nessa sensação
nenhum escopo.

E depois que ele passa
carregando consigo todas as metas
todos os nortes
todas as responsabilidades

deixa-me apenas a aflição
e o salobro sabor
de um já envelhecido entusiasmo.

Simplesmente
a vida ganha um novo sentido
Paulatinamente
as faces e almas rubram
Suplicantemente
deseja a mente
que seja essa sensação
incessante.

Há advérbios, porém
que mentem.
Acerca da simplicidade, da lentidão
E da súplica.

Pois nada tem de simples
o arraso de um projeto de vida
Nada tem de lento
um sentimento que arrebata de súbito
Nada tem de súplica
Uma vontade que, a meu ver,
é tão ínfima.

Meu distúrbio é surdo
ante à loucura
e à imensidão do subúrbio
Quanto mais se agita
menos ágil parece
para se remexer

Entre a doçura da ambrosia
E a fatalidade do arsênico:
o amor dá uma boa poesia
mas quiçá não passe de um esquizofrênico

Peleja

Apelo
e pelo.
O pêlo
se pela.
Pulo
pelo
palo.
Seco.
A pele
é palha,
pilha
o pilar
e a pleura.
Pilo a
Opala
qual
papel.
Praguejo:
não passo de
pilhéria.

É tarde, penso

Até, sempre no adeus me dizes.
Até quando? – pergunto-me
diuturnamente
Até o que? – indago-me
aflitivamente.

Sempre que de ti me despeço
Sinto meus olhos molhados
e que em toda pedra tropeço

Impacientes como perdizes
antes do abate
meus sentimentos são embaralhados
num portentoso pacote.

Falta-me ora válvula de escape.
Resta-me que o coração
- e com ele, este sentimento - soçobre.

(Auto)justificação

Perdão
mas é que meu tempo
- coisa escassa -
quanto mais eu tento
esticar, mais passa.

Judiação
achar que não se tem
tempo pra sentir;
a vontade vem
mas é sempre hora de ir

Aflição
querer fazer de um dia, dois
destilar miudezas
com meticulosa destreza
e o importante deixar pra depois

Solução:
às favas os escrúpulos
de responsabilidade.
Vejamos juntos o crepúsculo
- ou já será tarde?

Resignação
tento apreciar a sua luz
mas a apreensão me traz breu
E se tal não ocorresse, concluo,
deixaria de ser eu

Buarquianinha

Aurélio provê as palavras
Francisco concede as canções
Sérgio fornece a síntese sociológica

Assim,
componho minha poesia,
tenho minha trilha musical

e vivo a vida sem culpa
Pois tudo explica e justifica
o homem cordial.

Recôncavo epigráfico

A felicidade torna um homem ébrio
E afasta qualquer opróbrio

O paradigma é o prelúdio do dogma
A saudade é da solidão o magma

O desprezo é da indiferença o signo
E a felicidade, na verdade
é da tristeza um torpe interregno

A carne não é fraca.
Fraco é quem da sua fraqueza não se aproveita.

Há limite ao lirismo?

Epopéia da rima

Vi um sapato
Não pude comprar
Me falta dinheiro
E não posso esbanjar

Pensei u’a poesia
Não quero falar
Tenho vergonha
Receio não rimar

(de duas coisas
tenho vergonha:
rimar com verbo
e babar na fronha)

Verso sem rima
É coisa muderna.
Embora por cima,
Falta-lhe perna.

Sugiro um soneto
Na boa tradição
Quiçá de um quarteto
Goste esta geração

(pior do que rima
com verbo e conjugação
é pôr no poema
versos com inho e ão)

Mas é assim mesmo
Rima de pobre
Falta rebuscamento
Embora sinceridade sobre.

De fato, pra poesia
Não há mais espaço
Vale hoje a lira
O mesmo que um flato.

Sinestésica

Ficou na boca
o doce gosto da fumaça
cigarro que jamais traguei

Sinto ainda o perfume
da maciez da tua nuca
marola na qual viajei

Está em meu corpo
o terno calor da tua pele
que embebedou de volúpia minh’alma

No silêncio, acariciam meus ouvidos
O suave som do seu gemido
E o arfar intrépido da respiração descompassada

Indelével na retina permanece
a imagem do celestial repouso
Todo o prazer traduzido em sono

Nesse turbilhão de sensações,
mais sensata foi a minha insensatez
que abriu portas à felicidade:

O tempo perdeu o sentido
E os sentidos tornaram-se eternidade.

Assonância panfletária

A matéria prima da paz
é o pão
e o poder popular

Tomai, ó trabalhadores
O tear, o terno e o torno
E terá termo a trapaça
Da intrépida tirania

Vertei a vontade de vingar
Os velhos vencidos de outrora
Diletantes ou doutas, derrubai as ditaduras

Somai vossas forças
Organizai as hordas revoltosas
Rompei os grilhões:
Nada podemos perder,
Temos um mundo a ganhar.
Indignados de todo o mundo, uni-vos!

Lira pessimista

Só, no meio da multidão
Perdido entre postes, pastores e pedestres
Aguardo o que me reserva o mundo cão.

Minha lira é pequena
Para versar a solidão
E tornar-me digno de pena

Gastei meu latim em vão
Para quem comigo apenas foi cena
E eu, sua fresca ceia.

É amargo o sabor do prazer alado
Sem lastro, base, chão
Significativo como grão de areia.

O desdém se constata a passos largos
A mentira vem a cavalo
E a solidão, como uma aranha e sua teia.

Somos todos ilhas de paixões,
medos, saudades, incertezas
sofistamente incomunicáveis.

Masoquismo

Quem tem como costume a chibata
desdenha ao receber a flor.
Um pouco mulher de malandro,
um pouco santa e um pouco puta:
toda mulher é.

Minha falha, confesso,
é ter esperança.
A mulher,
senhores, jovens, mancebos,
é irrecuperável.
Incompreensível.
Insaciável.

Ao mesmo tempo que insubstituível.

Elegia

De que me vale
o intenso instante da pequena morte
Se após
uma lôbrega angústia me nocauteia
E faz
eu me sentir o saciador de uma vontade alheia.

Uma mera vontade.
Nada mais que vontade.

Do que desejo inteiro
Não me satisfaz a metade.
Mas a perspectiva do nada
torna-me covarde.

E me regozijo em pleno deleite da metade
que me é inteira, embora meia.

Mas a metade é rasa
para minh’alma em brasa
ardente de amor e entrega
migalhas meu corpo não nega

E amiúde meu coração se estraçalha.

Da legalidade

Será outro dia,
o que virá.
Amanhã sempre será.

A certeza da mudança,
do sofrimento e da morte
é a constante.

Felicidade finda,
tristeza é vinda.
Mais inexorável apenas a lei da gravidade.

Explodem palavras

Libertou-me o lirismo
Da racionalidade despótica
Beijaram-me a boca e me tornei poeta.

Minha poesia é desabafo
quando ninguém há para me ouvir
Grito em silêncio, assim não vão me escutar
E quem eu quero que me ouça, não irá.

Assim, pela palavra, dissipo a pressão
que me acossa o peito e comprime a alma
Rugidos roucos na cerrada selva.

Não sou de aço.
Não faço poesia programada.
Não tenho movimentos friamente calculados.
Sei que não devo ficar pensando antes de fazer qualquer coisa porque senão acabo sem fazer nada
mas às vezes eu penso. E me arrependo disso.

Às favas o pensamento, a poesia, o lirismo, o desabafo, o comunismo e a sociedade.
Todos estamos perdidos num círculo sem-fim de anedotas de humor negro sobre a nossa impotente e ridícula condição.
Basta-me uma coisa para me deixar feliz agora –
Que eu faça uma frase tão grande e cheia de palavras que quando eu a recite chegue a ficar sem fôlego para terminar de lê-la –
destarte poderei retornar à melancolia.

Vã Ideologia IV

(ou o desfecho em suspenso)

Riam, desdenhem
Confesso-me errado e anacrônico.
Percebo-me excesso.
Sou, porém, autêntico.

Se tenho medo, acelero.
Se estou seguro, Paro.
Se a estrada é plana, Desvio.
Se há abismo em frente, me Atiro.

Vivo. E tento deixar viver.
Se morro, não ligo:
mais vale se arriscar e perecer.
Praguejo e maldigo:
melhor extravasar a se conter

O arrependimento cede
Ao convencimento e serve
De alimento a um vindouro
Enternecimento.

Vislumbro.
Não me desespero.
Tenho esperança.

E um consolo:
Há mais mistérios entre a tristeza e a alegria
Do que supõe a nossa vã ideologia.

Vã Ideologia III

(ou Epílogo? em sete versos)

Erro, anacronia,
alguns amenizariam e diriam exceção.
A verdade é que sou excesso.

Em meio à graça da vida sobro,
- equívoco crasso -
e na melancolia soçobro

Só, o que me resta é a rotina.

Vã Ideologia II

(ou Torno ao Trágico Tema)

Mais que erro,
sou anacronismo ambulante.
Meu conceito de história é outro;
meus gostos são de outro tempo;
e não tenho tempo para o que gosto.
Sequer dou sorte
de na vida dos outros
encaixar-me no instante certo.
Porém... convalesço.
Inconsolável, observo
a dança inexorável da solidão
- ainda que no meio da multidão -
bailando sua graça diante de meus olhos,
consubstanciada em beleza e imprevisibilidade.
Desejo profundo comunicar-me com o mundo
Mas os meios cada vez mais se obstruem
E vai se apresentando renitentemente
Um réquiem esquizofrênico
De regozijo e repugnância.

Estação 84 – Central-Gramacho

Ergue-se a montanha
diante da Cardoso de Morais.
Este, que nunca liderou revolta:
provável é ter sido um mero bom burguês.
Na montanha, erguem-se barracos;
nos barracos, surgem histórias.
Que jamais serão contadas.

Domingo: as vitrines são mortas.
As barracas de ambulantes quedam-se
qual palafitas, sem a alegria pulsante
de suas cores e resistências à Guarda Municipal.
O pastor exorciza os demônios
dos incautos coitados na Igreja Universal.

A Praça não é do povo
mas das Nações – européias e imperialistas.
Graças à sanha cosmopolita pequeno-burguesa
atravesso Paris, Roma, Nova York, Bruxelas.
A Railway serve de limite
entre os Flashes e o Adeus - a Favela.

Há um concurso na Universidade –
cujo teatro virou shopping virou prédio fantasma –
Meninas e meninos e suas vãs certezas colegiais
Vestem-se qual estivessem numa festa.
O fetiche faz-se firme e forte:
flertam um futuro frouxo e flácido.

A melancolia jaz em cada muro
em cada esquina, cada folha ao chão.
A vida veloz segue carros e ônibus
Que sempre vão, seja domingo ou madrugada.
A humildade repousa nas frontes dos passantes
e a esperança, no coração do poeta.

Leblon, Ipanema, Copacabana
Perdoem-me se de vós não falo
Mas em Bonsucesso também jaz poesia
Embora tenha, cada bairro
o poeta que merece...
Qual chinelo velho para pé descalço.

Vã ideologia

Sou um erro
Como o Acre, não existo.
Melhor: como Cuba, anti-existo.
Não há mais comunistas.
Os fatos corroboram minha tese.
Mas... tranqüilidade.
Não compartilho com o mundo muitas idéias.
Atônito, contemplo a marcha inevitável do devir
caminhando a passos largos
em direção à mediocridade.
Sem condições de comunicar-me com o mundo
recolho-me, resignado
ao ostracismo.

Sente

Descartes o que ensinou Descartes.
De nada serve a razão
além de perpetuar
várias formas de opressão.

do todo sobre nós
de nós sobre o outro
de nós sobre nós
do outro sobre nós.

Esquece o que professou Kelsen.
Às favas com a lógica.
Tem muito mais encanto
a mágica

do prazer
de amar
de sentir
de chorar (por que não?)

Tem muito mais encanto, enfim
a mágica ilógica do ser
não após sido e analisado
ou a ser e imaginado
mas enquanto sendo sentido. Sem sentido.

Saudade

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Carlos Drummond de Andrade, Poema de Sete Faces.


Sei que no meu coração cabe um mundo
Difícil tê-lo sem parte vazia.
Poderia nele levantar muro
Fizesse, sufocado morreria.

Quedo-me imóvel entre cruz e espada
a posição é assaz delicada
Em meio ao medo de amar e sofrer
e o de não amar e fenecer.

Palavra, tu, que alimentas a alma,
Dá o pão que me satisfaça a fome:
Conforto ao meu coração irrequieto

Que seja possível amar sem trauma
Sem conhecer essa dor que consome
a alegria, e me deixa um soneto.

Cartesiana

Uma cama, uma mesa, um bar.
Angústia, desnorteio, tristeza.
Uma tv, uma esquina
Depressão, opressão, rotina.

O vazio ronda o coração
e a mente.
A morte anuncia-se
na ausência da vida.
A vida do sentido,
do relógio,
da explicação,
da obrigação.

Não conhecemos outra vida;
por isso chamamo-la morte.
Será mesmo morte?
Será arte?
Ou será sorte?

Vida sem norte,
praia sem forte,
arma sem porte:
que nunca nos baste o que temos.

Aos hesitantes

Quem não sabe de si
vai morrer sem amar
ninguém

E se acomoda
no sofá da sogra
sem saber o que tem
além
para descobrir
com quem
estiver a fim
de não só ver a banda passar.

Não quero velas, presente ou flor
Quero é falar de amor
Falar de mim, você, nós
Desatar os nós
Libertar a nós
Compartilhar, repartir
Dividir, multiplicar
Felicidade e penar
Sem desanimar

Quero o mundo, mudo e surdo
viajar a cem
no teu ventre, profundo
ter e fazer o bem

Quem de dentro de si
sai
vai poder amar
alguém.

Je pense... - inconnu

Le matin, je ne mange pas
Je pense a toi
A midi, je ne mange pas
Je pense a toi
Le soeur, je ne mange pas
Je pense a toi

La nuit, je ne dors pas
Je meurs de faim

Fardo

Parece que tudo que escrevi
alguém antes já o fez.
Sensação ignominiosa
a de ter consciência
que se é parte da história.

Cruel dialética

Hesito:
nunca se tem a certeza do
êxito.

Trapaça:
percebe-se a medida exata do
fracasso.

Sem limites

O poeta não é um fingidor.
O poeta
é ator
como o compositor
e o inventor.

A eles coube a tarefa
de refazer o mundo;
de redizer a vida;
de rearrumar o estado de coisas.

Todos somos poetas
mas nem todos sabemos escrever.
Todos somos atores
mas disso não nos damos conta.
Todos somos compositores
mas acabamos dançando como a banda toca.
Todos somos inventores
mas cada dia imaginamos menos.

A matéria-prima da arte
é o que nos rodeia
- a realidade nas suas múltiplas faces
e variados fac-símiles -
isto é o que há de finito.

Tal finitude não é empecilho,
mas incitação
para o espírito
- do qual a arte é pão -
alcançar a sua liberdade
e não mais ver tolhida
sua criação.

Constato

Como a grama cresce,
a noite cai,
e a história segue
o amor floresce.

Empecilho

O que o medo não impede,
a vergonha impede.

Mas o que a vergonha não impede,
o pudor impede.

Já o que o pudor não impede,
a razão impede.

E o que a razão não impede,
o medo impede.

Audácia

Me atrevo.
Sim, me atrevo a fazer poesia.
Poesia sem rima, métrica ou estrofe.
E será que ainda assim é poesia?
Que é a poesia?

Será ela devaneio, ilusão?
O Aurélio diz que não:
“1. Arte de escrever em verso
2. Composição poética de pouca extensão
3. Entusiasmo criador
4. Encanto, graça”

Para mim, poesia é tradução.
Melhor, é tradução da tradução.
A primeira, que o eu faz do mundo;
a segunda, forma que o eu dá
para a sua tradução do mundo.

Poesia não rima com fantasia
mas com dor, neurastenia,
inconformidade, não apatia
esperança e revelia.
Mais realidade que alegria.

Sim, me atrevo a fazer poesia
com rima e estrofe.
Quem sabe um dia
não a faço com métrica?

Poesia, para mim, é compromisso.